Na final da Taça David venceu Golias, isto é o Torreense vindo da Segunda Liga venceu o superfavorito Sporting. De um lado o Sporting, o vencedor da última Taça, finalista nas últimas três e com dezenas de vitórias e de presenças em finais, vindo de um campeonato em que foi vice-campeão e a equipa que melhor jogou e mais golos marcou (com mais de duas dezenas de diferença dos rivais); de outro, o Torreense, com apenas duas presenças na final, tendo sido a primeira há setenta anos! De um Torreense que nada tinha a perder, contra um Sporting híper favorito que tinha tudo a perder em caso de improvável derrota. Mas foi isso que aconteceu. Como se costuma dizer a propósito da magia do futebol, no domingo houve Taça!
É certo que o Torreense, em euforia com a possível subida de divisão, avisara que os seus jogadores não viriam passear ao Jamor, mesmo sabendo que não tinham armas para disputar a final taco a taco com o Sporting, tal a diferença de qualidade das duas equipas. Mas preparou-se muito bem com uma defesa coriácea muito povoada, boa ocupação de espaços, esquemas de bolas paradas bem organizadas e avançados rápidos e ousados para eventuais contra-ataques. Apesar de o Sporting o saber foi assim que sofreu dois golos nos dois únicos remates enquadrados que o Torreense efectuou: o primeiro num canto logo no início do encontro, em que a defesa sportinguista se distraiu, o segundo no fim do prolongamento, após novo falhanço da defesa do Sporting que num segundo momento provocou um penalty fatal contra um contra-atacante torriense.
O Sporting, para quem a vitória na Taça era obrigatória para salvar a época, falhou. Não foi ambicioso, antes desconcentrado, apático, distraído, displicente, como se ali se tivesse concentrado todo o cansaço físico e mental de uma época desgastante, contra uma equipa notoriamente inferior, mas concentrada, resistente, ousada, solidária, corajosa, combativa, competente na superação das suas limitações. O Sporting teve 70% de posse de bola, dos quais 80% no último terço atacante; efectuou 16 remates e perdeu flagrantes oportunidades de golo. Mas o Torreense quis mais vencer que o Sporting, afinal para os seus jogadores, era o jogo de uma vida. Os jogadores do Sporting não jogaram bem, fizeram um jogo morno e sem ambição, foram lentos e previsíveis, perderam muitos duelos, falharam nos momentos decisivos e foram impotentes perante os ferozes torrienses. Mais uma vez falharam em finais e em momentos competitivos decisivos. Só na última época: na final da Supertaça contra o Benfica (cuja futura vitória agora ofereceram de bandeja ao rival FC Porto), na meia-final contra o Vitória de Guimarães na Taça da Liga, no campeonato, cuja vitória não conseguiram renovar. Esta época falhada deixa muita matéria de reflexão e de decisão para a próxima época.
VN, texto; Fotografia Arlindo Homem


